Sexta-feira, 3 de Setembro de 2010
     
 
 
 
Banner 2 Banner 3
 
O Documento de Aparecida

   O DOCUMENTO DE APARECIDA

E OS REDENTORISTAS

 
INTRODUÇÃO
 
Quando pela primeira ouvi falar do tema proposto para a V Conferência, senti que era algo que se identificava facilmente conosco, Redentoristas: “Discípulos e Missionários de Jesus Cristo, para que nossos povos n’Ele tenham Vida: Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida (Jo 14,6)”. É um tema que toca diretamente nossa vida e nosso agir pastoral. Ser Missionário é algo que parece pertencer a nós mais do que a outros consagrados. E o ser Discípulo, mesmo que seja um desafio para nossas vidas, faz parte da essência da nossa espiritualidade, bem expressa em nossas Constituições, quando nos propõem continuar o exemplo de nosso Redentor, em seu modo de vida e no anúncio da Boa nova aos pobres.
 
Afinal, qual é essência do nosso ser Redentorista? Certamente é o Ser Missionário, ou podemos dizer, a Missionariedade. Isso significa que a definição de nossa vida redentorista não nos vem da ordenação, nem da vida religiosa em sua concepção genérica. Nossa identidade depende da missionariedade. Para nós, o ser Missionário condiciona a vida religiosa e o sacramento da ordem. A vida e a obra de Santo Afonso, particularmente a fundação de um novo instituto, desenvolveu-se a partir de sua prática missionária: “A MISSÃO é o elemento catalisador da vida do grupo em suas diversas manifestações: das estruturas da comunidade à atividade cultural”.[1]
 
Contudo, não podemos ser presunçosos. Temos muito que aprender, que reestruturar e que recomeçar. E a pergunta é exatamente esta: O que podemos tirar do Documento de Aparecida para nossa missão redentorista no Brasil, para nossa mensagem missionária, para nossas missões itinerantes, para nossos santuários, para nossa pastoral urbana, para a formação inicial e contínua, e também para nossa vida comunitária? O que o DA oferece quanto ao conteúdo, ao método, à finalidade, à estrutura e à espiritualidade da nossa missão? Até onde nós podemos nos comprometer com o DA, de tal modo que o assumamos e o façamos ser assumido pelos nossos destinatários?
 
Vamos ler juntos o DA, buscando nesse novo baú que os bispos nos oferecem, o que é sinal da vontade de Deus para nós, Redentoristas. Vamos aceitar as provocações que o Espírito possa nos fazer através deste documento. Afinal, nós também estamos sendo convocados a um processo de reestruturação por causa da missão e o DA certamente vem somar às propostas que nossa Congregação, já há mais anos, vem nos fazendo. Vamos ler o DA com a sensibilidade missionária aberta aos “cabreiros” que a V Conferência nos aponta na América Latina e no Caribe. Ainda que sejam tantos, teremos que fazer nossas opções, de acordo com nossas forças. Todavia, não é possível ignorar ou dar de ombros ao DA, e ficar fechados em nossas tradições ou naquilo que já nos acostumamos a fazer. Certamente, temos consciência de nossa fragilidade missionária, diante dos desafios atuais de evangelizar uma sociedade diferente e sempre em mudança, diante da qual nem sequer contamos com categorias suficientes para caracterizá-la social e religiosamente. 
 
V CELAM – APARECIDA
 
Ø      APARECIDA:
Há uma mensagem que brota da própria escolha do local para a V Conferência, como notam muito bem Oscar Beozzo, Dom Demétrio Valentini e outros autores. Foi uma opção inesperada, feita pelo próprio papa. Chile, Argentina e Equador estavam no páreo. Mais ainda. Jamais uma conferência tinha acontecido dentro de um santuário e no sub-solo, de tal modo que necessariamente os participantes tinham que sentir a presença dos romeiros. Aparecida é um santuário onde diariamente passam ao menos 5.000 peregrinos e nos fins de semana entre 100 a 200 mil peregrinos. O mês de maio costuma ter uma maior afluência de romarias. Os participantes do Celam necessariamente ouviam os romeiros rezando e cantando, da manhã até a tardezinha. Além disso, como estavam hospedados nos vários hotéis da cidade, o ir e vir à Basílica os obrigava a passar pelo meio do povo, que sempre os saudava festivamente. E, admiravelmente, todos os dias, tinham a sua concelebração no altar central, junto com os romeiros. Desta forma, mesmo que a assembléia nem sempre entendesse os presidentes das celebrações, esses certamente recebiam um belíssimo testemunho de fé popular e de participação litúrgica, além do seu amor filiar a Nossa Senhora. Ou seja, os participantes da V Conferência jamais conseguiram ficar isolados em seu mundo hierárquico e clerical, como aconteceu nas outras conferências.
O DA reflete muito bem esta interação vivencial, quando fala sobre a religiosidade popular. Aparecida ofereceu um espaço físico popular, cultural e espiritual, onde os participantes podiam contemplar concretamente todo tipo de rostos, principalmente dos pobres, que sempre estavam sorrindo para os bispos. Basta notar o belo título que dão a essa experiência: “A piedade popular como lugar de encontro com Jesus Cristo”, como um dos itens do caminho de formação do discípulo missionário.
 
2.          PARTICIPANTES:
Eram 266 participantes, dentre os quais 162 votantes: 93 bispos eleitos, 15 nomeados pelo Papa, 32 da cúria, 22 cardeais. E mais 81 convidados, 15 peritos e 8 observadores de outras religiões.
O pluralismo atual da Igreja católica fez-se bem presente: movimentos, Cebs, religiosos, novas comunidades, etc. Os bispos podiam ser identificados facilmente segundo suas tendências: bispos pastorais, bispos sociais, bispos dos movimentos, bispos curiais, etc.
A presença do Papa, em seu discurso inaugural, surpreendeu, porque abriu portas, foi propositivo, sublinhou pontos que entraram com força na pauta da assembléia, como a opção pelos pobres e as injustiças estruturais. Foi bem diferente de João Paulo II em Santo Domingo. Basta lembrar algumas afirmações do Papa, como: “Deus é a realidade fundante, não um Deus só pensado ou hipotético, mas um Deus de rosto humano; é o Deus conosco, o Deus do amor até a cruz”“a opção preferencial pelos pobres está implícita na fé cristológica naquele Deus que se fez pobre por nós, para enriquecer-nos com sua pobreza”; “é inevitável falar do problema das estruturas, sobretudo das que criam injustiça. Na verdade, as estruturas justas são uma condição sem a qual não é possível uma ordem justa na sociedade”.
Enfim, tudo ajudou para que, apesar das tensões e diferenças, reinasse um clima de confiança e de paz entre os participantes. Até o aspecto ecumênico foi sereno. Souberam assimilar até mesmo as manifestações externas à Conferência, como a Tenda dos Mártires, o Fórum de participação e outros. Não houve o mal estar de manipulações e maquinações.
Apesar e acima das conflitualidades, os participantes têm consciência da situação de fragilidade da Igreja dentro da sociedade atual. Dom Odilo a caracterizava como uma igreja deprimida, cansada, desencantada como instituição, com católicos cheios de azedume com sua própria Igreja. Com ministros, Pais e bispos que, não raro, ofereciam um rosto negativo da Igreja. Assim, a Igreja-instituição reflete certas marcas bem atuais:
o mundo do secularismo: a globalização da economia e da mídia, o pluralismo ideológico e cultural, o dispersionismo mental e sentimental, a indiferença ética, pessoal e pública, etc.
a insignificância social da Igreja como instituição hierárquica: parece que já não conseguirá mais recuperar sua importância social e seu papel público de outrora.
as seitas, como estratégia eficaz de convocação, como força política e como religião de consumo, que supre um mercado abandonado.
o desencanto do próprio católico: uma parte pela involução do compromisso social da Igreja, pela re-centralização hierárquica, pelo neo-clericalismo, etc. Outra parte, por uma política de compromisso social carente de uma espiritualidade cristã mais explícita, que acabou por dispersar suas forças. Talvez, houve um reducionismo do empobrecido a mero objeto social de injustiças, negando-lhe o direito a necessidades mais imediatas e até a anseios mais profundos do que a libertação sócio-econômica somente.
 
3.          O DOCUMENTO:
O DA é um bom documento. Mesmo feito com tensões, não é contraditório. É precário como gênero literário, mas é orgânico e lógico. Parece um milagre de N. Sra. Aparecida, que deveria ser colocado na Sala de Promessas.
Seu processo de elaboração superou de longe o frustrante “documento de participação” e até a “síntese das contribuições recebidas”. Assim, a assembléia partiu da estaca zero e pode-se dizer que o DA foi gerado e nascido dentro da assembléia. E ainda que tenha havido algumas tentativas de aborto antes que fosse publicado, conseguiu sobreviver em suas características fundamentais. Para muitos dos participantes, a assembléia foi mais rica do que o documento. 
Não se pode esquecer o fato de que houve maior uso dos meios de comunicação atuais, como celular e internet, e a presença e atuação de teólogos e de outras pessoas (fórum, tenda dos mártires) não foi considerada como atividade paralela ou conflitiva, e sim como colaboração.
Definitivamente, o DA não é um retrocesso. Pelo contrário, tenta refazer o gosto de ser Católico, a partir não da grandeza histórica e social da instituição eclesial, mas sim de uma fé-seguimento pessoal de Jesus. Volta a descentralizar o SER IGREJA, começando pela família e pelos pequenos grupos e movimentos. Refaz a importância da caridade social.
O DA é um documento integralmente missionário. A idéia de Missão o perpassa em todas as direções. É uma Missão vinculada mais diretamente à pessoa de Jesus do que à instituição eclesial, comprometida essencialmente com o tema da Vida, em continuação à própria missão de Jesus: “Eu vim para que todos tenham vida....” 
O DA reafirma assim os valores tipicamente eclesiais da América Latina e do Caribe, como:
1. A opção pelos pobres, intrínseca à fé em Jesus.
2. A importância das CEBs na estrutura eclesial.
3. O método VER-JULGAR-AGIR
4. Os novos sujeitos da Evangelização: migrantes, indígenas, afro-americanos, mulher...
5. O valor e a centralidade da Bíblia
6. A retomada do Concílio Vaticano II, como referência indispensável da Igreja atual.
7. A Teologia da Libertação, não como parágrafo próprio, mas como inspiração de todo o documento.
8. A relação necessária entre conversão pessoal e conversão estrutural.
 
E sublinha novos aspectos pastorais e eclesiais:
1. Uma Igreja em permanente Missão
2. Uma Missão que seja anúncio e promoção da Vida
3. Uma Missão que exige mudanças estruturais na Igreja
4. A pobreza atual como insignificância, descarte e sobra.
5. A deserção de católicos para outros grupos com busca sincera de Deus
6. O protagonismo pastoral das mulheres
7. Os mártires das causas sociais como santos ainda não canonizados
 
4.          PALAVRAS E TEMAS CHAVES: DISCÍPULO (mais de 390 vezes) MISSIONÁRIO (mais de 340 vezes) VIDA (mais de 840 vezes) POVO (mais de 300 vezes) MISSÃO (mais de 180 vezes). Pode-se afirmar que se trata de um documento CRISTOCÊNTRICO > BIOCÊNTRICO > MISSIOCÊNTRICO. Parte explicitamente de Jesus Cristo e da sua Mensagem de Vida, compromete-se com a Vida em toda a sua extensão e intenção e convoca para uma nova Missão em favor da Vida.
4.1.             Discípulo e Missionário são denominações que estão vinculados diretamente à pessoa de Jesus e se entrelaçam como uma só idéia. Surgem como uma expressão que recupera o cerne do Evangelho. Também as expressões Vida, Povo e Missão se complementam e indicam o conteúdo mesmo do Reino de Deus. São palavras ou conceitos que ocorrem ao longo de todo o documento, como fios condutores. Se não aceitamos ou não entendemos esses conceitos, não podemos acolher nada no DA.
4.2.             Pelo próprio tema da Conferência e pelos conceitos mais insistentes, pode-se dizer que o DA é mais evangelizador e menos institucional. Jesus, e não a instituição eclesial, é a referência essencial e normativa. Jesus em sua dimensão universal e cósmica, como proposta divina a todos os povos e a todas as culturas, como presença divina na história da humanidade. Não é propriedade exclusiva da Igreja católica. É Caminho, Verdade e Vida para todos. O ser ‘discípulo’ e ‘Missionário’ referem-se aos Evangelhos, ‘Vida’ surge como um conceito amplo, que compreende também a natureza e toda a ética ecológica, e ‘Povo’ é uma referência principalmente a gente simples, aos trabalhadores, àqueles que não pertencem às classes dominantes de nossos países.
4.3.             A palavra unificadora do DA é, sem dúvida, VIDA. Há uma opção fundamental pela Vida no DA. Vida no sentido mais amplo, desde a vida sobrenatural, da graça, até a vida ecológica. Nota-se certa tensão ideológica entre grupos que sublinham a vida da graça e grupos que falam simplesmente da vida em si. O resultado é que “Vida” torna-se o conceito transversal em todo o documento adquire uma conotação universal. Mesmo quando fala da Vida de Jesus, fala-se da sua vida integral, material e espiritual. Devido ao conceito ‘Vida’, as três grandes partes do DA poderiam também ter sido intituladas: I parte: o contexto de VIDA de nossos povos; II parte: Discípulos da VIDA; III parte: Missionários da VIDA para nossos povos.
 
4.4.             Notamos ainda que a palavra ÉTICA, em todas as suas dimensões, perpassa também todo o documento, em todas as suas dimensões. Para que haja evangelização, para que haja cristianismo, como discipulado e como missão, e para que haja uma sociedade verdadeiramente humana, é essencial que se estruture uma ética pessoal, comunitária, eclesial, profissional, política, científica, econômica, ecológica, etc. 

 
O DOCUMENTO DE APARECIDA
 
 
INTRODUÇÃO
América Latina e Caribe conseguiram fecundar as ‘sementes do Verbo’, realizando uma Evangelização, que mesmo feita de luzes e sombras, sempre representou um DOM: Existe uma tradição católica, existe uma cultura religiosa positiva. Por tudo, é preciso dar graças a Deus e louvá-lo.
Aparecida quer ser uma continuidade entre os CELAM (Rio 1954; Medellín 1968; Puebla 1979; Santo Domingo 1992) e quer dar um novo passo no caminho da Igreja.
Sua finalidade: é > “proteger e alimentar a fé do povo de Deus”
                                   > “recordar também aos fiéis deste Continente que, em virtude de seu batismo, são chamados a ser discípulos e missionários de Jesus Cristo”.(10)
 
Uma fé católica reduzida a uma bagagem de normas e proibições, práticas de devoção fragmentadas, adesões seletivas e parciais das verdades da fé, participação ocasional em alguns sacramentos, repetição de princípios doutrinais, moralismos brandos ou crispados, não resistem aos embates dos tempos.(12)
 
Temos o desafio de revitalizar nosso modo de ser católico. É preciso escolher entre caminhos para a Vida ou caminhos para a Morte, que se expressa numa cultura sem ou contra Deus (Dt 30,15). “Não tenham medo!”(Mt 28,5). Somos definidos não pelos desafios e tarefas, mas pelo amor do Pai, graças a Jesus Cristo pela unão do Espírito Santo.
 
Nosso desafio fundamental: “mostrar a capacidade da Igreja para promover e formar discípulos e missionários que respondem à vocação recebida e comuniquem por toda parte, transbordando de gratidão e alegria, o dom do encontro com Jesus Cristo.” (14)
 
 
I PARTE: (VER): A VIDA DE NOSSOS POVOS HOJE
A I parte se desenvolve em dois capítulos: I. Os Discípulos Missionários, e II. Olhar dos Discípulos Missionários sobre a realidade.
São dois capítulos que conseguem recuperar o método Ver-Julgar-Agir, sem muito rigor e acrescentando frases complementares: Ver a realidade à luz da providência divina; Julgar segundo Jesus Cristo, Caminho, Verdade e Vida; Agir a partir da Igreja.
 
Capítulo 1: OS DISCÍPULOS MISSIONÁRIOS
 
1. O primeiro sentimento é de Ação de graças a Deus.  Ser cristão, não é uma carga, mas um dom. Provoca a alegria de ser discípulos e missionários de Jesus Cristo.
2. A missão da Igreja é evangelizar, ser portadora de boas notícias, não profeta de desventuras.
 
Capítulo 2: OLHAR DOS DISCÍPULOS MISSIONÁRIOS SOBRE A REALIDADE
 
3. A grande realidade do mundo: a Globalização: ciência e tecnologia, da manipulação genética até a rede mundial de comunicações. As tradições já não passam de uma geração para outra.  A crise do sentido unificador para a vida. Ser humildes e recomeçar a partir Cristo.
4. Olhar sobre a situação sócio-cultural: mudança cultural profunda: subjetividade individual, realização imediata de desejos individuais, problemáticas na sexualidade, na família, nas enfermidades e na morte. Ciência e a técnica a serviço do mercado. Impõe-se uma nova colonização cultural. Tudo é espetáculo, tudo é corpo, tudo é publicidade, tudo é lucro, sem valores e sem instâncias religiosas. Eis a cultura do consumo. Há aspectos positivos: o valor fundamental da pessoa, da consciência, da experiência pessoal, da simplicidade, do fraco; já não há ideologias dominantes, que fracassaram.
5. Olhar sobre a situação econômica:  a globalização = monopolização, promotor de iniqüidades e injustiças múltiplas. Concentração de poder e de riquezas, cria não só “explorados”, mas também “sobrantes” e “descartáveis”.
Por isso, somos chamados à globalização da solidariedade.
6. Olhar sobre a dimensão sócio-política: os regimes são democráticos. Mas, cheio de corrupção, e de violência.  Falta de políticas públicas de igualdade social, criam-se leis injustas, contra os direitos humanos fundamentais. É positiva a globalização da justiça.
6. Olhar sobre a biodiversidade, ecologia, Amazônia e Antártida: apropriação intelectual ilícita, agressão à natureza, internacionalização de Amazônia, degelo do Ártico.
7. Olhar sobre a presença dos povos indígenas e afro-americanos na Igreja: são ameaçados em sua existência física, cultural e espiritual.
 
Ø        Situação de nossa Igreja nesta hora histórica de desafios: tem dado testemunho de Cristo e anunciado o Evangelho. Grandes passos: Bíblia, Liturgia, Ministérios leigos, CEBs, movimentos, solidariedade social, comunicação, ética e espiritualidade. Mas, tem diminuído numericamente, retrocesso eclesiológico, pouca opção pelos pobres, falta de pertença à Igreja, individualismo, relativismo ético e religioso, ausência na cultura.
 
 
O QUE A I PARTE DO D.A. (VER) OFERECE PARA A NOSSA MISSÃO REDENTORISTA? QUE ASPECTOS DA REALIDADE ANALISADA NOS TOCAM MAIS DE PERTO E NOS QUESTIONAM?
 
u1. Vivemos bem próximos do povo simples: nas periferias, nas Missões populares, no contato direto em nossas igrejas, principalmente nas confissões e aconselhamento. A realidade que tocamos em nossa pastoral é esta descrita pelo DA? Acho que podemos distinguir entre uma macro-realidade, tal como descreve muito bem o DA, e uma micro-realidade, que é aquela com a qual nos deparamos mais frequentemente. Parece-me que nós tocamos mais facilmente a micro-realidade, pela nossa proximidade com o povo, por tudo o que vemos e ouvimos na pastoral missionária. São os pequenos problemas de cada dia, as doenças, as angústias familiares, o trabalho, as situações emocionais, os conflitos pastorais, etc. A macro-realidade cultural, política, econômica, religiosa, etc. é um contexto, de que nossa gente vive mais o menos consciente, conforme atinge sua vida pessoal ou familiar. O movimento carismático e as seitas sabem alimentar-se muito bem dessa micro-realidade.
 
u2. É importante que busquemos um equilíbrio entre a resposta cristã à micro e à macro-realidade. É preciso proporcionar ao povo tomar consciência do contexto de suas vidas, para que conheça quais são os caminhos para a vida e quais são os caminhos para a morte. É importante não alienar-se da micro-realidade, mas fazer com que nossas comunidades aprendam a localizá-la dentro da macro-realidade. Mesmo nas missões, alguns painéis ilustrativos podem fazer com que a comunidade tome consciência de sua situação dentro da cidade, do estado e do país.
 
u3. Contudo para nós, missionários consagrados e leigos missionários, é imprescindível que tenhamos uma consciência clara da macro-realidade, como pano de fundo condicionante da nossa atuação missionária: a situação sócio-cultural-política-econômica-religiosa do povo: a globalização, o subjetivismo, o individualismo, o consumismo, a ciência e tecnologia de mercado, a comunicação de massa com sua cultura artificial (nova colonização) e a publicidade, a serviço da cultura do consumismo. Em cada local de pastoral e em cada missão, é preciso avaliar até que ponto essas dimensões estão influenciando o povo que estamos evangelizando.
 
u4. Mas, devemos continuar atentos à micro-realidade, que é o povo concreto, na conjuntura de sua forma de pensar, de sua escala de valores, da formação de sua consciência, de suas preocupações de cada dia, das dependências e influências já adquiridas e assumidas. Isto é parte do nosso carisma. São as culturas tradicionais, ainda vivas. É a cultura urbana e suburbana, é a cultura dos emigrantes, que resistem ou co-existem com a atual colonização cultural. É preciso respeitar esse protagonismo positivo ou negativo do povo e do pobre, jamais reduzindo-o a mero objeto ou vítima da opressão. Só assim, sentirá também a responsabilidade de assumir um papel ativo em sua libertação. 
 
u5. Teríamos que dialogar mais e melhor para aprofundar nossa visão da realidade social, política e econômica. Até que ponto nós próprios temos pontos de vista comuns sobre a macro-realidade do nosso país, da América Latina e do mundo? Na preparação das nossas atividades missionárias, temos sido capazes de discernir a presença da macro-realidade e sua incidência na vida do povo, onde vamos pregar? Até que ponto somos capazes de superar nossas divergências político-partidárias ou político-nacionais e internacionais, para ir ao encontro do pobre e do abandonado, sem preconceitos positivos ou negativos?   
 
u6. O método VER-JULGAR-AGIR é também válido para nós como método missionário, que nos ajuda a inculturar nossa proposta missionária. Ajuda-nos a olhar para a realidade com os olhos da fé, jamais como obstáculo ou impossibilidade, mas como desafio missionário.
 
 
 
 
 
II PARTE: (JULGAR): A VIDA DE JESUS CRISTO NOS DISCÍPULOS
MISSIONÁRIOS
Esta parte trata o conceito-chave “Vida”, em relação aos Discípulos Missionários. De fato se a sua MISSÃO é irradiar a Vida de Jesus e segundo Jesus, então terão que aprender e viver tal Vida. Não será possível ser Missionário da Vida, se não se apropriam de tudo o que significa esta Vida, se não a defendem interiormente como valor inquestionável e inalienável. O conceito “Discípulo Missionário” torna-se mais forte e insistente nesta parte, como uma nova proposta de renovação da vocação batismal para todos os católicos.
São 4 capítulos, que nos falam da Alegria de ser Discípulos Missionários, de sua Vocação à Santidade, de sua Comunhão eclesial e de seu Itinerário formativo.
 
Capítulo 3: A Alegria de sermos Discípulos Missionários
para anunciar o Evangelho de Jesus Cristo
 
1. “Como vamos saber o caminho?” “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14,6). Nossa alegria de ser Discípulos Missionários nos vem precisamente de ter Jesus como resposta.
É interessante como o DA nos oferece certas expressões, que chama a atenção: “Boa nova” da dignidade humana, da vida, da família, da atividade humana, que inclui o trabalho e a ciência e tecnologia, e do destino universal dos bens e da ecologia. Isso significa que dignidade humana, vida, família, atividade humana, os bens e a ecologia são “Evangelho”, isto é, são parte do conteúdo evangelizador – boa notícia – revelação, e não somente interlocutores da Evangelização.
2. Por tantos batizados, pela religiosidade, pela vitalidade da Igreja, pelo protagonismo dos leigos, somos o Continente da esperança, mas temos que ser também o Continente do amor.
 
Capítulo 4: A Vocação dos Discípulos Missionários à santidade
 
3. É um caminho de santidade que compreende 4 conceitos básicos: o chamado para de seguimento do Senhor, a configuração com o Mestre, o envio para anunciar o Evangelho da vida e a ação animadora do Espírito Santo.
4. Somos chamados ao seguimento de Jesus Cristo, não para seguir idéias ou leis, não para nos vincular com algo, mas com Ele. Para tornar-se parecidos com o Mestre é necessário assumir a centralidade do Mandamento do amor. Ser enviados a anunciar o Evangelho do Reino de vida é ser testemunha da morte e ressurreição do Senhor, que “não é uma tarefa opcional, mas parte integrante da identidade cristã”(144). E tudo depende de sermos animados pelo Espírito Santo, que faz vencer as tentações do mundo e seguir a vontade do Pai, como Jesus.
 
Capítulo 5: A comunhão dos Discípulos Missionários na Igreja
 
5. Somos chamados a viver em comunhão. A realidade do ser Igreja é ser comunhão. Toda a sua estrutura, sua organização somente têm validade na medida em que servem à comunhão: diocese, paróquia, Cebs e Pequenas Comunidades, e Conferências Episcopais existem para serem lugares de comunhão.
6. Os Discípulos missionários com vocações específicas, como bispos, presbíteros, diáconos permanentes, os leigos e leigas, os consagrados e consagradas, são todos animadores da comunhão. “Comunhão” e “discípulos-missionários” se intercambiam e interagem.
7. Os que deixaram a Igreja para se unir a outros grupos religiosos: nem sempre devido ao proselitismo das seitas, mas porque não encontraram respostas às suas inquietações. É preciso reencantar aos afastados e convidá-los a voltar à Igreja.
8. No cenário atual do nosso mundo, uma eclesiologia de comunhão leva ao diálogo ecumênico. E até a relação com o judaísmo e o diálogo inter-religioso encontra muitas causas comuns atuais que exigem maior colaboração e respeito mútuo, em vista da construção da nova humanidade. 
 
 
Capítulo 6: O CAMINHO DE FORMAÇÃO DOS DISCÍPULOS MISSIONÁRIOS
 
9. Na formação dos Discípulos Missionários, o primeiro ponto é uma espiritualidade trinitária do encontro com Jesus. Há lugares de encontro com Jesus. É reconhecida a piedade popular como lugar de encontro com Jesus Cristo e tratada com todo carinho. Aqui se insere também a figura de Maria, discípula e missionária por excelência. E os apóstolos e os santos, cujas vidas são lugares privilegiados de encontro com Jesus. O segundo ponto trata do processo de formação dos discípulos missionários, em que são oferecidos aspectos fundamentais e critérios gerais. No terceiro ponto, se insiste na questão da Iniciação à vida cristã e catequese permanente. E o quarto ponto considera os lugares de formação para os discípulos missionários: a família, as paróquias, as pequenas comunidades eclesiais, os movimentos eclesiais e novas comunidades, os seminários e casas de formação religiosa e todos os centros de educação católica.
            10. O início do ser cristão é sempre um encontro de fé com a pessoa de Jesus, para segui-lo. A Sagrada Escritura, junto com a Tradição, a Sagrada Liturgia, principalmente a Eucaristia, a Reconciliação, a oração pessoal e comunitária, a Comunidade viva e fraterna, os Discípulos, os Pastores, os que lutam pela justiça, pela paz e pelo bem comum, e especialmente os pobres, aflitos e enfermos são lugares de encontro com Jesus Cristo. Além desses, também a piedade popular, a figura de Maria, discípula e missionária perfeita, e a devoção aos apóstolos e os santos são lugares privilegiados de encontro com Jesus.
12. O processo de formação dos discípulos Missionários: Há 5 aspectos básicos: 1º. O Encontro com Jesus Cristo; 2º. A Conversão; 3º. O Discipulado; 4º. A Comunhão; 5º. A Missão. Os critérios gerais pedem: uma formação integral kerygmática e permanente, atenta a dimensões diversas (humana e comunitária, espiritual, intelectual, pastoral e missionária), respeitosa dos processos, em que o caminho é longo, que contempla o acompanhamento dos discípulos, principalmente dos leigos para atuarem na transformação da sociedade, e uma formação na espiritualidade da ação missionária.
13. Iniciação à vida cristã e catequese permanente: É necessário oferecer uma modalidade de iniciação cristã, que leve o candidato ao contato com Jesus Cristo, para iniciá-lo no discipulado. É urgente desenvolver uma “catequese mistagógica”: não só conhecimento, mas experiência pessoal de introdução nos sinais sacramentais, como experiência de encontro vivo e persuasivo com Cristo. A Catequese permanente tem tido progresso, mas, há deficiências quanto à formação teológica e pedagógica dos catequistas. América Latina e Caribe exigem uma identidade católica mais pessoal e fundamentada, que seja “um itinerário catequético permanente”, em que o primeiro fundamento seja a leitura e a meditação da Palavra de Deus, e conte também com os subsídios do Catecismo da Igreja Católica e do Compêndio da Doutrina Social da Igreja.
14. Lugares de formação para os discípulos Missionários: o primeiro é a família, primeira escola de fé, seguida da paróquia, lugar de acolhimento familiar, das pequenas comunidades eclesiais, dos movimentos eclesiais e novas comunidades, dos seminários e casas de formação religiosa, e das escolas e universidades. Pede que em todos estes lugares se promova una formação explicitamente católica, com a finalidade principal de formar discípulos missionários para o mundo e a Igreja.
 
 
O QUE A II PARTE DO DOCUMENTO DE APARECIDA NOS OFERECE COMO DISCERNIMENTO QUE DEVEMOS LEVAR A SÉRIO EM NOSSA MISSÃO DE REDENTORISTAS?
 
1.       É fundamental que assimilemos a expressão “Discípulos-Missionários” como uma nova convocação evangélica que pede um novo compromisso de qualidade no seguimento de Jesus, para nós próprios e para nossos destinatários. “Discípulo-Missionário” é algo mais do que ser um bom católico. É um novo desafio, um novo movimento, um novo projeto evangelizador, que deveria nos unir a todos, no Brasil, na América Latina e Caribe, prevalecendo sobre de todos os demais grupos e movimentos atuais, no desafio de refazer a nova Evangelização. Creio que é uma terminologia que pode tornar-se popular e significativa em nossas missões, principalmente entre todos os leigos que atuam conosco. Pode ser uma expressão mais palatável do que o termo “leigo”, que sempre precisa de dicionário para ser entendida.  
 
2.       A Palavra de Deus terá que ocupar uma centralidade mais forte e explícita nas missões, como fonte primeira de tudo o que pregamos e realizamos. Ter a Bíblia nas mãos, “biblificar” mais e melhor nossas pregações, conferências e todo o processo de qualquer trabalho missionário. Temos a força da piedade popular, mas sem uma referência constante e explicita à Bíblia, deixamos aberta uma brecha fácil para as seitas. A sacralização da Bíblia, ao menos na mesma proporção que fazemos com as imagens e com outros símbolos, sem dúvida criará uma nova segurança de fé para os católicos.
 
3.       Se tirarmos todas as conseqüências da afirmação de que a família é uma ‘boa nova’, teremos que dar uma guinada em nossa pastoral missionária. A família passa a ser pastoralmente a primeira instância pastoral, não como destinatária, mas como lugar. Teríamos que renovar todas as estruturas primeiramente a partir da família, e as comunidades e paróquias deverão subsidiar a família. Assim, tudo o que puder ser feito a nível de família, a começar da catequese infantil, deverá ser plenamente reconhecido pela paróquia. Ela somente assume o lugar da família, quando ela não existe ou não assume. Será que já não existem muitas famílias em condições de assumir o ser ‘igreja doméstica’, sem terem que passar pela burocracia paroquial?
 
4.       A relação dos missionários com as famílias deve ser fortalecida. Não se renova uma comunidade somente a partir de indivíduos, mas também a partir das famílias, que vivem em geral à margem da presença sacerdotal e missionária. O MINISTÉRIO DA VISITAÇÃO teria que ser reforçado por nós próprios, tanto nas missões como na pastoral ordinária.  A  divisão das famílias em grupos de rua ou setores de evangelização teria que tornar-se a finalidade principal de todas as etapas das missões e uma prioridade pastoral em nossas paróquias e igrejas.
 
5.       Em relação às CEBs, é importante dar uma direção explícita do nosso trabalho com os pequenos grupos, para que se encaminhem em direção à formação de CEBs, em suas mais variadas formas, isto é, em comunidades de fé e vida, comprometidas com a libertação pessoal, com a participação na comunidade e com a transformação da sociedade. Mesmo que nas missões, nós não fundemos CEBs, devemos lançar as suas sementes.
 
6.       Certamente temos consciência de que uma igreja cheia não é necessariamente uma comunidade. Deveria ser um ponto de encontro de comunidades vivas, isto é, de gente que se conhece pelo nome, que se reúne e que partilha a fé e luta pela vida. Por isso, investir fortemente na formação de comunidades vivas deveria ser uma prioridade anterior à multiplicação de celebrações, às construções e reformas e até à formação de pastorais e ministérios.
 
7.       É um esforço de conversão convencer-se de que a missão dos LEIGOS se realiza primeiramente no mundo, na sua família, no seu trabalho, na sociedade. Sempre pensamos que os leigos bons são aqueles que conseguimos cooptar para os ministérios eclesiais nas comunidades. A colaboração na liturgia, na pastoral, etc., mesmo que seja importante, não é o específico do leigo nem é o que o define como discípulo-missionário de Jesus.
 
8.       Gostamos da qualificação ‘paróquia ou igreja missionária’, mas a realidade é que normalmente 2/3 do nosso tempo e das nossas energias são consumidas na pastoral de conservação ou manutenção, isto é, na assistência ordinária aos fiéis. Projetos e atividades que tenham como destinatários os ‘afastados’ são raros e eventuais, não fazem parte do projeto anual da nossa pastoral ordinária. Será então honesto usar esse atributo “missionário”? O DA exige que tenhamos criatividade e coragem pastoral para priorizar projetos que saiam ao encontro da multidão de ‘afastados’.
 
9.       Quanto ao processo de formação dos discípulos-missionários, nas missões populares privilegiamos principalmente as etapas do Encontro com o Senhor e da Conversão. Todavia, com os leigos missionários, e em todas as nossas áreas missionárias, devemos levar essas etapas até o Discipulado, a Comunhão e a Missão. E é também nossa responsabilidade oferecer uma formação na espiritualidade da ação missionária. Para isto, basta possibilitar e promover a participação em nossa espiritualidade redentorista, que é essencialmente missionária.
 
10.    A questão da Iniciação cristã coloca uma pergunta à nossa pressa de sacramentalizar, tanto durante as missões como em muitas de nossas igrejas. De fato, para muitos as missões representam a iniciação e a finalização imediata de sua experiência cristã. Será que não teríamos a possibilidade de criar etapas em que nós próprios pudéssemos acompanhar o processo de iniciação começada nas missões? Por Internet, por correio, por encontros periódicos, seria possível levar adiante, com seriedade, o processo de formação, quando as próprias comunidades não possuem meios suficientemente motivadores. E nas outras áreas de atuação teríamos que levar muito a sério uma programação sólida na formação dos leigos que nos cercam, promovida por nós próprios ou em colaboração com outras instâncias.
 
11.    Nossos subsídios para a pós-missão devem ter em conta a catequese permanente, oferecendo um caminho sistemático de temas e de experiências, que ajudem os grupos a crescer na compreensão da fé e na vivência cristã. Não bastam os temas ocasionais ou oportunos, como Campanha da Fraternidade, Novena de Natal, etc. Nosso povo missionado necessita de cursos catequéticos populares, que façam as pessoas aprenderem enquanto rezam.
 
12.    A finalidade de formar discípulos-missionários deveria penetrar também em nossos seminários, para que todos os jovens que passam por uma experiência de formação conosco, consagrados ou não, sejam preparados para serem agentes missionários na Congregação, na Igreja, na Sociedade.
 
 
 
 
 
III PARTE: (AGIR) A VIDA DE JESUS CRISTO PARA NOSSOS POVOS
 
Capítulo 7: A MISSÃO DOS DISCÍPULOS A SERVIÇO DA VIDA PLENA
 
1.        “A Igreja peregrina é missionária por natureza”(347). Nesta terceira parte, a do agir, o conceito “Vida” volta com insistência, como finalidade da missão da Igreja e objetivo da ação dos discípulos missionários. O impulso missionário brota da vida que a Trindade comunica aos discípulos. A missão dos discípulos é viver e comunicar Vida plena à nossa gente. Somos conclamados a ser Missionários da VIDA de Jesus Cristo para nossos povos. É necessário promover uma cultura da vida plena, anunciar o Reino da vida. Isso inclui o compromisso com a Promoção humana, em que a opção preferencial pelos pobres é uma questão de justiça e de caridade. Propõe uma nova globalização, a da solidariedade. Volta a considerar a questão da vida nas famílias, nas pessoas, desde a infância até a velhice e no meio ambiente. E termina com a cultura, como espaço onde se promove a vida ou a morte.
2.        Viver e comunicar a vida nova em Cristo a nossos povos, porque Jesus se colocou à serviço da vida, até na Eucaristia. Honrar o corpo eucarístico de Cristo é cuidar dos pobres. Há várias dimensões da vida em Cristo: “a vida nova de Jesus Cristo atinge o ser humano por inteiro...inclui a alegria de comer juntos, o entusiasmo para progredir, o gosto de trabalhar e de aprender, a alegria de servir a quem necessite, o contato com a natureza, o entusiasmo dos projetos comunitários, o prazer de uma sexualidade vivida segundo o Evangelho e todas as coisas com as quais o Pai nos presenteia como sinais de seu sincero amor”(356). Contra essa vida, está o consumismo hedonista e individualista, em que tudo é imediato e sem limites.
3.        A serviço da vida plena para todos: O Reino de vida nos compromete com uma cultura da vida. E há uma profunda lei da realidade: “a vida só se desenvolve plenamente na comunhão fraterna e justa”.(359) Nossa missão é comunicar vida: “A vida se acrescenta dando-a, e se enfraquece no isolamento e na comodidade” (360). Tudo na Igreja “deve deixar transparecer esta atrativa oferta de vida mais digna, em Cristo, para cada homem e para cada mulher da América Latina e do Caribe”.(361) Assumimos o “compromisso de uma grande missão em todo o Continente”, para anunciar a Vida plena.
4.         Conversão pastoral e renovação missionária das comunidades: Uma conversão que passe “de uma pastoral de mera conservação para uma pastoral decididamente missionária”(370). Os Leigos devem tornar-se parceiros, as paróquias deverão ser setorizadas, as comunidades de famílias devem se multiplicar, e aumentar o voluntariado missionário. E é preciso renovar nosso compromisso com a missão ad gentes, tanto no âmbito geográfico como no sócio-cultural. “Devemos formar-nos como discípulos missionários sem fronteiras, dispostos a ir ‘à outra margem…”.(376)
 
Capítulo 8: REINO DE DEUS E PROMOÇÃO DA DIGNIDADE HUMANA
 
5.        A Boa Nova de Jesus é universal, é para todos. “Nada do humano pode lhe parecer estranho”.(380) Jesus Cristo é a resposta total aos anseios de nossos povos. O Reino de Deus consiste na salvação para a Vida de todo ser vivo, particularmente do ser humano. E o Reino é proposta de estruturas novas, tanto mais forte, quanto mais conscientes somos de que as estruturas existentes não se harmonizam com as estruturas propostas pelo Reino de Deus.
6.        Reino de Deus, justiça social e caridade cristã: Ser discípulo e missionário da vida leva a assumir “as tarefas prioritárias que contribuem para a dignificação do ser humano”,(384). A misericórdia “não deve contribuir para criar círculos viciosos”(385) de um sistema econômico injusto. “Em nossas obras, nosso povo sabe que compreendemos sua dor” (Alberto Hurtado)(386). A cultura atual cria um estilo de vida contrário à natureza e à dignidade humana. É preciso afirmar o valor supremo de cada homem e de cada mulher.
7.        A opção preferencial pelos pobres e excluídos: “Jesus Cristo é o rosto humano de Deus e o rosto divino do homem. Por isso, a opção preferencial pelos pobres está implícita na fé cristológica naquele Deus que se fez pobre por nós, para nos enriquecer com sua pobreza”.(392) “Tudo o que tenha relação com Cristo, tem relação com os pobres e tudo o que está relacionado com os pobres clama por Jesus Cristo”(393). Por ser una opção preferencial “implica que deva atravessar todas as nossas estruturas e prioridades pastorais”(396). “A opção pelos pobres deve conduzir-nos à amizade com os pobres”(398).
8.        Uma renovada pastoral social para a promoção humana integral: “Todo processo evangelizador envolve a promoção humana e a autêntica libertação”.(399) O serviço da caridade, com a Palavra e os Sacramentos, “é expressão irrenunciável da própria essência” da Igreja.(399) Que os empresários cristãos não invistam em especulação, mas criem fontes de trabalho. É urgente promover a globalização da solidariedade e da justiça internacional. Pastores e leigos precisam estar atentos aos debates e normas internacionais a respeito das grandes questões de justiça internacional.
9.        Rostos sofredores que doem em nós: pessoas que vivem na rua nas grandes cidades; migrantes: promover uma cidadania universal; enfermos; dependentes de drogas; detidos em prisões.
 
Capítulo 9: FAMÍLIA, PESSOAS E VIDA
 
10.        Faz-se necessária uma Pastoral Familiar para proclamar o evangelho da família e promover a cultura da vida. É um dos eixos transversais de toda a ação evangelizadora da Igreja, que deve estimular:
v        o compromisso de todas as outras pastorais e movimentos a favor das famílias.
v        a preparação remota e próxima para o matrimônio e para a vida familiar.
v        promover leis a favor da vida e da família.
v        centros paroquiais e diocesanos para a família, especialmente aquelas em situações difíceis: mães adolescentes e solteiras, viúvos e viúvas, 3ª. idade, crianças abandonadas, crianças órfãs, etc.
v        programas para paternidade e maternidade responsáveis.
v        casais em situação irregular e questões de nulidade matrimonial
v        atenção especial às viúvas.
11.        As crianças: são destinatárias de uma ação prioritária da Igreja, por causa da pobreza, da violência, do abuso sexual, da exploração, etc.
v        atender à sua formação integral
v        criar um departamento especial da Infância
v        promover processos para o cuidado especial da Infância pela sociedade e pelo estado.
v        sem prejudicar o direito dos pais, tutelar pelos direitos naturais inalienáveis das crianças.
v        considerar pedagogias adequadas para a iniciação cristã
v        fomentar a instituição da Infância Missionária
12. Os adolescentes e jovens: continuam sendo a maioria em nosso continente. São a esperança e são as primeiras vitimas de tudo, até da comunicação virtual. Temem uma vida sem sentido:
v        renovar a opção preferencial pelos jovens, de forma eficaz e realista
v        estimular os movimentos que têm carisma para os jovens e que estejam a serviço das Igrejas locais
v        propor-lhes o encontro com Jesus Cristo e as propostas vocacionais
v        privilegiar na Pastoral da Juventude uma fé como resposta de sentido de vida e de compromisso missionário
v        formar gradualmente para a ação social e política
v        urgir a capacitação profissional dos jovens
v        garantir a participação dos jovens em peregrinações, jornadas, etc.
13.        O bem-estar dos idosos: Merecem o respeito e gratidão primeiramente na família por tudo o que já fizeram e fazem. São necessárias políticas sociais justas e solidárias que os atendam. A Igreja deve preparar mais agentes para ampliar esse valioso serviço de amor aos idosos e que sejam incorporados à missão evangelizadora. 
14.       A dignidade e a participação das mulheres: A figura de Maria “é fundamental na recuperação da identidade da mulher e de seu valor na Igreja”(451), tal como foi a prática de Jesus. “A relação entre a mulher e o homem é de reciprocidade e colaboração mútua”(452). Contudo, são inumeráveis as que não são valorizadas em sua dignidade e a sua participação na construção da sociedade e da Igreja, onde são a maioria. Marcadas pelo machismo e pela sociedade do consumo e do espetáculo. É urgente voltar a valorizar a maternidade, como “missão excelente da mulher”(456). Algumas ações pastorais:
v        Promover o protagonismo das mulheres e seu gênio feminino na Igreja e na sociedade.
v        Garantir sua presença efetiva nos ministérios, também nas instâncias de planejamento e de decisões pastorais.
v        Acompanhar as associações femininas que lutam para superar situações de exclusão e de vulnerabilidade.
v        Promover o diálogo com as autoridades para harmonizar a vida profissional com a missão de mãe de família.
15.        A responsabilidade do homem e pai de família: Tem sua vocação específica na construção da sociedade, na geração da cultura e na realização da história. Sente-se fortemente convidado a formar família. Como batizado, muitos delegam sua missão às mulheres e vivem à margem da Igreja, distantes ou indiferentes. Assim, cresce a separação entre fé e cultura. Terminam em estilos de vida desumanizadores, cedendo à violência, à infidelidade, à corrupção, abuso de poder, drogas, alcoolismo e abandono de seu papel familiar. Muitos são cobrados, mas não reconhecidos no ambiente familiar, social e de trabalho. É preciso estimular especial atenção pastoral para o pai de família:
v        revisar as catequeses aos sacramentos, para favorecer o anúncio e a reflexão sobre a vocação do homem
v        aprofundar o papel do homem na Igreja doméstica
v        educar os jovens para os valores e atitudes sobre o papel do homem no matrimônio, na paternidade e na educação dos filhos na fé
v        desenvolver nas universidades o estudo do impacto dos modelos culturais atuais na identidade e missão do homem
v        denunciar a mentalidade neoliberal que reduz o pai a mero provedor da produção e do consumo, o que sacrificou até o domingo
v        favorecer sua ativa participação na vida da Igreja  
16.        A cultura da vida: sua proclamação e sua defesa: “A vida é presente de Deus, dom e tarefa que devemos cuidar desde a concepção, em todas as suas etapas, até a morte natural, sem relativismos”(464). O diálogo entre ciência e fé é para a defesa da vida, também daqueles que não têm voz. São crimes abomináveis: o aborto, a eutanásia, a manipulação genética e embrionária, os ensaios médicos antiéticos, a pena capital. Ou se defende a vida humana sempre, desde a fecundação, ou as conveniências dos poderosos encontrarão desculpas para maltratar as pessoas:
v        promover cursos sobre família e sobre questões éticas para os agentes de pastoral.
v        procurar que o clero e leigos se especializem em moral familiar e em questões éticas, como bioética.
v        promover fóruns e seminários sobre o respeito à vida
v        criar comitê de ética e bioética nas Conferências episcopais
v        oferecer programas de formação aos matrimônios
v        acompanhar com ternura e solidariedade as mulheres que não querem abortar, e com misericórdia aquelas que abortaram
v        promover a formação e ação de leigos competentes para participarem em organismos nacionais e internacionais
v        fazer com que a objeção de consciência se incorpore nas legislações e seja respeitada.
17.        O cuidado com o meio ambiente: “As criaturas do Pai dão glória ‘com sua existência mesma” (470). A natureza é uma herança a ser protegida, um espaço para a convivência, uma responsabilidade para que seja para o bem de todos. Somos profetas da vida diante do poder econômico e tecnológico, para que as gerações futuras tenham um mundo habitável e não um planeta contaminado:
v        É preciso evangelizar sobre o dom da criação, como casa e matriz de todos os seres vivos
v        Aprofundar a presença pastoral nas populações mais ameaçadas
v        Procurar um desenvolvimento alternativo por uma ecologia natural e humana. Estimular a organização das pessoas do campo para justas reivindicações.
v        Lutar por políticas que garantam a proteção, conservação e restauração da natureza.
v        Monitorar a aplicação dos padrões ambientais internacionais nos países.
v        Criar consciência sobre a importância da Amazônia para a humanidade e apoiar com recursos humanos e financeiros a Igreja que vive na Amazônia.
 
 
Capítulo 10: NOSSOS POVOS E A CULTURA
 
1.       A cultura e sua evangelização: A cultura é o modo particular de cada povo cultivar “sua relação com a natureza e com seus irmãos, consigo mesmos e com Deus”(476). A fé só bem entendida e vivida, quando penetra na cultura. Mas, há um confronto com a cultura atual, a partir do desenvolvimento da ciência e da técnica. Emerge a subjetividade, o pluralismo cultural e religioso e o individualismo como característica dominante, com o conseqüente relativismo ético e a crise da família. Surge assim uma cultura de morte. “Neutralizar a cultura de morte com a cultura cristã da solidariedade é um imperativo que diz respeito a todos”(480).
2.       A educação como bem público: a educação pública não deveria “ignorar que a abertura para a transcendência é uma dimensão da vida humana” (481). Crianças e adolescentes têm direito a valores morais, de que os governos não podem privar.
3.       Pastoral da Comunicação Social: O mundo atual está formatado por uma grande cultura midiática. Não se pode prescindir destes meios, porque difundem quase sem limites a audiência da Palavra de Deus. “A Igreja se sentiria culpada diante de Deus se não empregasse esses poderosos meios”(485, estes novos ‘telhados’ ou púlpitos atuais. Por isso, temos que formar discípulos e missionários nesse campo e procurar:
conhecer e valorizar esta nova cultura da comunicação
promover formação profissional
formar nos valores humanos e cristãos os comunicadores profissionais
apoiar e otimizar os meios de comunicação próprios da Igreja
estar presente nos meios de comunicação de massa
educar na formação crítica diante da mídia desde a primeira idade
animar as iniciativas existentes com espírito de comunhão
suscitar leis que protejam as crianças, os jovens, as pessoas vulneráveis
desenvolver uma política de comunicação na mídia católica para localizá-la na missão evangelizadora.
A Internet é um “Duc in altum!” como potencial para proclamar a mensagem evangélica. Não substitui as relações pessoais e a vida comunitária, mas favorecem o intercâmbio da fé e da vida.
4.       Novos areópagos e centros de decisão: São “o mundo das comunicações, a construção da paz, o desenvolvimento e a libertação dos povos, sobretudo das minorias, a promoção da mulher e das crianças, a ecologia e a proteção da natureza… e o vastíssimo areópago da cultura, da experimentação científica, das relações internacionais”(491), onde tantos católicos continuam atuando. Deus é Verdade, mas é também Beleza e Bondade. Necessitamos dos artistas tanto quanto dos cientistas para garantir o crescimento da pessoa. Nossos planos pastorais devem:
v        Atuar com artistas, esportistas e toda classe de profissionais
v        Resgatar o sacerdote como formador de opinião.
v        Criar grupos de diálogo entre Igreja e formadores de opinião
v        Utilizar a arte na catequese e na pastoral
v        Incorporar a arte nas celebrações litúrgicas
v        Incentivar a criação de centros culturais católicos
5.       Discípulos e Missionários na vida pública: “A opção preferencial pelos pobres, de raiz evangélica, exige una atenção pastoral voltada aos construtores da sociedade” (501). Faltam líderes católicos na política, na comunicação, na universidade, levando a deterioração da concepção do ser humano, fechado a Deus e ao outro. Os efeitos são dolorosos: agressões à vida, especialmente contra inocentes e desvalidos, pobreza aguda e exclusão social. Há um laicismo exacerbado e um relativismo ético, que recusa a presença da Igreja, limitada aos templos. É preciso formar discípulos e missionários que não sucumbam diante do materialismo e do egoísmo. Necessitamos de políticos íntegros, que superem a corrupção endêmica, que dificulta ser honesto.
6.       A Pastoral Urbana: As grandes cidades são laboratórios de uma cultura complexa e plural, que se estende ao mundo rural. Há sentimentos de impotência pastoral e de fechamento nos métodos antigos. “Deus vive na cidade”(514). São lugares de liberdade e oportunidade. Há experiências de fraternidade, solidariedade e universalidade. A Igreja formou-se nas grandes cidades e sonha com a ‘Cidade santa’. Por isso, recomendamos que a pastoral:
v        enfrente a crescente urbanização
v        seja capaz de atender a todas as categorias
v        desenvolva uma espiritualidade de gratidão, de solidariedade e misericórdia
v        abra-se a novas experiências de estilo e linguagem para encarnar o Evangelho
v        transforme as paróquias em comunidades de comunidades
v        aposte em comunidades ambientais, em nível supra-paroquial e diocesano
v        integre os elementos próprios da vida cristã: Palavra, Liturgia, fraternidade e serviço, especialmente aos pobres
v        forme leigos para inserir-se nos ambientes das cidades
v        fomente a pastoral da acolhida
v        atenda o mundo do sofrimento urbano: hospitales, cárceres, excluídos, dependentes de drogas, famílias desintegradas, novas urbanizações
v        crie a presença da Igreja nas novas concentrações urbanas: novas paróquias, capelas, comunidades, etc.
Os discípulos e missionários, para levar a vida plena de Cristo a cristãos e não cristãos do mundo urbano, devem:
Ø        adequar a pastoral ao urbano, na linguagem, nos horários, nas estruturas
Ø        ter um plano pastoral orgânico para toda a cidade
Ø        setorizar as paróquias em unidades menores
Ø        ter um processo de iniciação cristã e de formação permanente
Ø        ter serviços de atendimento, de acolhida pessoal, de confissão
Ø        realizar grandes eventos, que mobilizem e toquem na afetividade, com uma linguagem simbólica
Ø        criar estratégias para chegar aos lugares fechados da cidade
Ø        ser presença profética, ainda que contradiga a todos, quanto a valores e princípios do Reino de Deus
Ø        dar presença nos centros de decisão
Ø        formar e contar com leigos que sejam assessores para a ação social
Ø        desenvolver uma pastoral que considere também a beleza no anúncio
Ø        oferecer serviços especiais segundo as diferentes atividades da cidade
Ø        descentralizar os serviços eclesiais, com muito mais agentes de pastoral
Ø        formar sacerdotes e agentes para esses desafios
Tudo isso não tira a importância de renovar a pastoral rural, para que seja integral e seja capaz de resistir às migrações.  
7.       A serviço da unidade e da fraternidade de nossos povos: “Aspiramos a uma América Latina e Caribenha unida, reconciliada e integrada”(520). Há possibilidades para uma união e solidariedade mais estreitas sobre os fundamentos da vida, do amor e da paz, capaz de reverter as novas formas de empobrecimento, exclusão e injustiça. Nossa Igreja é “sacramento de comunhão de nossos povos, é morada de seus povos, é casa dos pobres de Deus”(524). Não basta uma mera integração comercial, enquanto as redes do narcotráfico se integram além das fronteiras.
8.       A integração dos indígenas e afro-americanos: Reconhecemos e valorizamos as ‘sementes do Verbo’ presentes nas tradições e culturas dos povos indígenas. Como discípulos e missionários da vida, são nossos compromissos a defesa e a promoção de tudo o que significa vida para o indígena: seus direitos de identidade e de organização própria, de território e de cultura, e também de sua fé católica, que alguns tentam desarraigar. Apoiamos também o desafio dos afro-americanos, em seus autênticos valores culturais, em sua história e tradição, com os quais é preciso entrar em diálogo fraterno e respeitoso. A Igreja denuncia toda discriminação e racismo, defende seu acesso à educação superior e como advogada dos pobres, se faz solidária com eles em suas reivindicações de território, de cidadania, e de projetos próprios. Apóia o diálogo entre cultura negra e fé cristã.
9.       Caminhos de reconciliação e solidariedade: “A Igreja precisa animar cada povo a construir em sua pátria uma casa de irmãos onde todos tenham moradia para viver e conviver com dignidade”(534). A Igreja deve ajudar a somar e não a dividir. “Importa cicatrizar feridas, evitar maniqueísmos, perigosas exasperações e polarizações” (534) . É preciso educar nos caminhos da reconciliação e amizade social, de cooperação e integração, construindo a esperança, que já pulsa em nossos povos. Isso depende de sermos bons samaritanos, que criam estruturas justas como condição para uma ordem social justa. Como o estado e o mercado não satisfazem a todas as necessidades humanas, é preciso aplicar o princípio de subsidiariedade, criando outros organismos. A paz ainda é um bem precário e não uma “cultura da paz”, como fruto de um desenvolvimento sustentável, eqüitativo e respeitoso da criação. “A radicalidade da violência só se resolve com a radicalidade do amor redentor”(543). A Igreja não faz batalha política, mas não pode “ficar à margem da luta pela justiça”(546 – Bento XVI).         
 
 
 
O QUE A III PARTE DO DOCUMENTO DE APARECIDA APRESENTA COMO SUGESTÕES IMPORTANTES PARA A NOSSA MISSÃO DE REDENTORISTAS?
 
1.       Para nós, Redentoristas, a “Vida” de Jesus e segundo Jesus está compreendida em nossa expressão “Copiosa Redenção”. Afinal, nossa missão é redimir a “Vida”, anunciamos e convocamos para uma ‘copiosa Redenção’ da Vida pessoal, comunitária e social. Talvez, será importante sublinhar mais explícita e fortemente este objetivo final da ‘copiosa Redenção”: que todos tenham Vida. “Vida” e “Copiosa Redenção” terão que caminhar mais juntas e mais explícitas em nossa pregação e ação missionárias.
 
2.       A Vida deve ser entendida em seu sentido integral, que compreende a vida natural e a sobrenatural, a vida pessoal e a vida social, a vida temporal e a vida eterna, a vida humana e a vida de todos os demais seres. É uma cultura da vida, como um kérygma que produz uma nova atitude religiosa diante de uma realidade sagrada: a Vida, presente de Deus, que ninguém tem o direito de limitar ou tirar. Por isso, é necessário combater a “cultura da morte”, não raro presente na mentalidade do nosso povo, como uma atitude passiva e religiosamente conformista diante de mortes injustas.
 
3.       Como missionários, teremos que ser “profetas da vida” em toda sua amplitude, desde a concepção até seu último suspiro, comprometidos também com a vida da natureza, como a Amazônia, e com a biodiversidade. É a defesa da terra contra a exploração econômica, que sacrifica a vida e as condições fundamentais para a dignidade da vida humana. Uma vez mais, a conversão missionária deve ter como finalidade uma mudança radical de uma cultura da morte e da violência para uma cultura da vida e da paz, pelos caminhos da reconciliação e da solidariedade.
 
4.       Certamente, os temas da sacralidade da vida humana e da dignidade de cada pessoa humana, simplesmente enquanto é vida e é pessoa, terão que estar de forma explícita no conteúdo de nossos anúncios. A partir desses dois direitos inalienáveis, é preciso propor (profetizar) o sonho de uma cidadania latino-americana e universal para todos.
 
5.       A missão popular, os santuários e todas as nossas frentes missionárias não podem jamais se limitar a ser apenas uma pastoral de assistência pastoral ou de animação de massas. O que estamos fazendo há muitos anos, promovendo pequenas comunidades, grupos de famílias, setores missionários, etc. terá que ser levado em frente e aperfeiçoado sempre mais, não só em base geográfica, mas também em base ambiental, de grupos de interesses e de afinidades. Neste sentido, a participação ativa de Leigos missionários, melhor Discípulos-Missionários, é um investimento pastoral necessária e crescente.
 
6.       Será difícil levar em frente uma dinamização das pequenas comunidades sem a realização de missões populares periódicas e sem uma estrutura firme de animação da liderança das pequenas comunidades e grupos. Será que não deveria tornar-se um compromisso para as nossas igrejas e paróquias fazer com que a missão popular, pregada pelos nossos, pela própria comunidade ou por outros, fosse necessariamente parte do projeto pastoral de cada triênio?
 
7.       A pastoral urbana é uma expressão que inclui um pluralismo de situações, geralmente complexo e contraditório. Por isso, a ação missionária nos grandes centros urbanos terá que ter como objetivo atingir e envolver comunidades e grupos humanos específicos. As manifestações de grandes massas, que envolvem toda uma cidade ou todo um bairro, quando possíveis, devem servir apenas de estratégia para a formação ou consolidação das pequenas comunidades e grupos. E não somente de grupos próximos geograficamente, mas também de grupos com proximidade cultural, profissional e afetiva.
 
8.       Na cultura da socialização urbana atual, em que as fronteiras geográficas significam pouco, principalmente nas grandes cidades, se de fato a paróquia deve ser uma ‘comunidade de comunidades’, será que ela não poderia ser criada não só a partir dos limites artificiais de ruas, mas sim a partir de um certo número de comunidades vivas que se identificam entre si, independentemente dos endereços de seus membros? Isto exigiria uma mudança radical na burocracia diocesana e paroquial que temos praticado.
 
9.       Parece que boa parte das igrejas continua se programando a partir da sua herança rural e dos planejamentos internos das comunidades religiosas. Não se adequam ao ritmo de trabalho e de lazer do mundo urbano, em que os horários não dependem mais do binômio dia-noite. Basta analisar o ritmo dos programas dos jovens para perceber o quando andamos defasados em nossas propostas e horários.
 
10.   Se o centro da nossa mensagem deve ser a Vida, é um desafio possível nas missões e em nossas igrejas promover momentos e espaços de ecumenismo e de manifestação da cultura indígena e afro-americana.
 
11.   É preciso voltar a propor com insistência a “opção preferencial pelos pobres”, atentos aos novos rostos, provocados pela globalização: migrantes, vítimas da violência e do tráfico de pessoas, tóxico-dependentes, exploradas sexualmente, analfabetos tecnológicos, crianças de rua, etc. O DA deixa-nos um questionamento inquietante: até onde nós, redentoristas, cultivamos nossas amizades em meio aos pobres?
 
12.   A dimensão de Comunidade, que é conteúdo necessário de nossa proposta missionária, deve ser vinculada mais fortemente à dimensão da defesa e da promoção da Vida e provocar a criação ou animação dos serviços de caridade, desde a assistência solidária até a conquista de direitos fundamentais para o povo. Não basta celebrar ou cantar. Uma expressão que poderíamos propor para que penetre nas inquietações das comunidades é a “Globalização da Solidariedade”.
 
13.   É algo novo propor a família como um EVANGELHO, que se contrapõe à fragmentação e descaracterização familiar incentivados pela mídia e por grupos da sociedade. Se a família é de fato uma revelação divina, então é um bem a ser reconquistado, custe o que custar. Ao mesmo tempo, vale a pena insistir para que as comunidades sejam um lugar de acolhida familiar, principalmente para aqueles que já perderam seu ambiente familiar.
 
14.   Poderíamos assumir o pedido de fomentar a Infância Missionária para as crianças, comprometendo-nos mais diretamente com sua organização.
 
15.   Para os jovens, o primeiro grande desafio é promover uma experiência de unidade e colaboração dos distintos grupos de diferentes tendências que ordinariamente encontramos nas paróquias e comunidades, onde estamos ou onde vamos pregar missões. Temos que pensar em estratégias capazes de envolver todos aqueles que já participam, para em seguida chegar até aqueles que estão afastados. Eis um desafio muito sério para as missões populares, que precisaria criar uma pós-missão especial para os jovens. Temos que nos convencer de que a pastoral com os jovens exige investimento financeiro e de pessoas, se se quer dar passos verdadeiros nesta opção preferencial da América Latina e da Congregação.
 
16.   A questão do machismo merece nossa atenção, porque é uma conversão evangélico-cultural a longo prazo, tanto da sociedade como dos nossos ambientes clericais. É preciso partir da consciência de nosso machismo clerical, em que facilmente faltam a reciprocidade e a co-responsabilidade com as mulheres. O valor da maternidade, também em seu sentido simbólico, faz com que a mulher seja uma agente insubstituível em nossas missões e em nossas igrejas.
 
17.   Falar sobre a Vida é falar da ética na ciência e na tecnologia. Bioética, manipulação genética e embrionária, fecundação artificial, aborto, etc. tudo se relaciona com a vida. É uma urgência que nós, redentoristas, aprofundemos nossos conhecimentos de teologia moral, para proclamar e defender a vida com argumentos sólidos.
 
18.   É preciso aproveitar muito mais da ‘mídia’. Mesmo que não tenhamos espaço em rádios e televisões, a Internet é um campo aberto e viável, que já atinge milhões de pessoas, principalmente os jovens. Devemos pensar em preparar os Missionários da Internet (consagrados e leigos), capazes de criar projetos de evangelização, como formação sistemática, subsídios para as missões, meios de formação e diálogo evangelizador e até um projeto de “Missão Redentorista virtual”. Não se pode fechar os olhos para um instrumento tão poderoso, atual e acessível.
 
19.   A questão das Comunicações Sociais é um campo em que deveríamos trabalhar em rede com todos os Redentoristas do Brasil e da América Latina e Caribe. Vale a pena pensar em um Secretariado latino-americano para as Comunicações Sociais. Veja que a Comissão de Reestruturação tem suas propostas.
 
20.   A idéia de uma Missão Continental mexe diretamente conosco. Uma Missão cujo roteiro seja elaborado a partir dos temas “Discípulos-Missionários” e “Vida plena”. É um desafio que se relaciona necessariamente com a proposta de Reestruturação da nossa Congregação. Nosso ‘Sim’ à Reestruturação pode abrir-nos as portas para sermos também protagonistas de tal Missão.
 
21.   Somos Missionários-Discípulos. Nossa primeira atitude é de gratidão e de alegria por sermos Missionários. Agora, estamos convidados a ser Discípulos, isto é, a aprender mais, a seguir Jesus mais de perto, a aprofundar nossa experiência de encontro pessoal com o Mestre e a olhar para a realidade com os olhos do Pai misericordioso, sem medo dos desafios. Mais do que nunca, há espaços imensos e motivações profundas para continuar sendo Missionários Redentoristas em nosso Continente.
 
 
CONCLUSÃO:
Tudo o que a V Conferência deseja é “despertar a Igreja na América Latina e Caribe para um grande impulso missionário... Necessitamos sair ao encontro das pessoas , das famílias, das comunidades e dos povos para lhes comunicar e compartilhar o dom do encontro com Cristo... Não podemos ficar tranqüilos em espera passiva em nossos templos” (548). “Para nos converter em uma Igreja cheia de ímpeto e audácia evangelizadora, temos que ser de novo evangelizados e fiéis discípulos” (549). Há uma Missão Continental no horizonte da Igreja, que convoca todas as suas forças vivas e exigirá a colaboração de todas as instâncias eclesiais. “Recobremos, portanto, o ‘fervor espiritual’. Conservemos a doce alegria de evangelizar, inclusive quando é necessário semear entre lágrimas”...”Recuperemos o valor e a audácia apostólicos” (552). “Guiados por Maria, fixamos os olhos em Jesus Cristo, autor e consumador da fé, e dizemos a Ele com o Sucessor de Pedro: ‘Fica conosco, pois cai a tarde e o dia já declina’(Lc 24,29)”  
 
 
BIBLIOGRAFIA:
DOCUMENTO DE APARECIDA: EDIÇÕES CNBB, PAULINAS E PAULUS, 2007
AMERINDIA: V CONFERÊNCIA, RENASCER DE UMA ESPERANÇA, PAULINAS 2008
AGENOR BRIGHENTI, A DESAFIANTE PROPOSTA DE APARECIDA, PAULINAS 2007

 
 
Cantando.....
 
Queremos ser Discípulos de Jesus
Vamos seguir seus passos, viver na sua luz.
Seremos Missionários de Jesus
Para que tenha vida quem vive sob a cruz.
E PROCLAMAREMOS QUE ELE É O CAMINHO, ELE É A VERDADE E A VIDA!
 
 
Oração do Missionário Redentorista
Pai santo, fazei-nos fortes na fé, alegres na esperança, fervorosos na caridade, inflamados no zelo, humildes e sempre dados à oração.
Dai-nos forças para que sejamos homens apostólicos e genuínos discípulos de Santo Afonso, seguindo contentes a Cristo Salvador.
Queremos participar do seu mistério e anunciá-lo com evangélica simplicidade de vida e de linguagem, pela abnegação de nós mesmos, pela disponibilidade constante para as coisas mais difíceis, a fim de levar aos homens a “Copiosa Redenção”.
É o que vos pedimos pela intercessão de Maria Santíssima e de Santo Afonso, por meio de Jesus Cristo Nosso Santíssimo Redentor. Amém.
 
CREDO DO MISSIONÁRIO REDENTORISTA
 
Creio que Deus de tal modo me amou
que me deu seu Filho único como meu Redentor (Jo 3,16)
Creio que Jesus me amou e se entregou totalmente por mim (Gl 2,20),
a tal ponto que se aniqüilou a si mesmo
tornando-se semelhante a mim em tudo,
exceto no pecado (Fl 2,5-11).
Por meu amor, fez-se criança num Presépio.
Por meu amor, ofereceu-se à morte na Cruz.
Por meu amor, reduziu-se a um pedaço de pão na Eucaristia.
Por tudo isso, creio que a Redenção é abundante
para mim e para todas as pessoas (Sl 130)
Creio que somente amando Jesus Cristo acima de tudo
e amando cada pessoa como Jesus amou
serei uma “Memória viva” de sua presença encarnada no mundo (1Cor 13)
Creio que Ele me ungiu para continuar sua missão,
anunciando uma Boa Notícia aos pobres (Lc 4,18-19).
Creio que Maria é a Mãe da Esperança,
que me ajudará a dar uma resposta de amor a tão imenso amor. Amém.
 


[1] Raponi Sante, A Espiritualidade Redentorista das Origens, em Cadernos Redentoristas-13, CERESP, Ed. Santuário, Aparecida 1999, p. 34

Pe. José Ulysses da Silva, C.Ss.R.

The Redemptorist World - O Mundo Redentorista - This Redemptorists Ring managed by Kinnoull
[ Previous 5 Sites | Previous | Next | Next 5 Sites | Random Site | List Sites ]

© Copyright 2010 - C.Ss.R
Congregação do Santíssimo Redentor

       Desenvolvido por 3P Consultoria