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1. Como é que a Igreja proibe a comunicação com os mortos, se a própria Bíblia conta a história de Saul que consultou uma médium para conhecer o seu futuro?
Vou primeiro contar brevemente o que diz o Primeiro Livro de Samuel no capítulo 28. Saul tinha sido escolhido por Deus, por meio do profeta Samuel, para ser o primeiro rei do povo de Israel. No princípio agiu corretamente. Era corajoso e fiel. Mas depois desobedeceu a Deus e foi rejeitado por ele. O remorso foi destruindo a personalidade de Saul, que se tornou invejoso, triste e inseguro. Certo dia os filisteus invadiram Israel com um forte exército. Saul perguntou a Javé, seu Deus, o que devia fazer, mas este não lhe respondeu. Então o rei desesperado procurou uma médium, para consultar o espírito de Samuel, seu antigo amigo e conselheiro, que tinha morrido. A mulher evocou Samuel, que através dela, respondeu a Saul, predizendo a derrota dos israelitas e sua morte na batalha.
Contém esta narração bíblica alguma prova a favor do espiritismo? Em primeiro lugar, é preciso lembrar que no livro do Deuteronômio, capítulo 18, Javé proibe expressamente aos israelitas interrogar os espíritos e evocar os mortos. Eles devem escutar apenas a palavra de Deus através de seus profetas. O próprio Saul, para cumprir a ordem de Javé, havia expulsado do país os médiuns. Agora resolve recorrer a eles e os seus servidores lhe dão o endereço de uma médium clandestina na cidade de Endor.
Portanto, a história de Saul demonstra somente que a tentação de participar em sessões espíritas era comum naquele tempo, como hoje. Não significa nenhuma aprovação da prática de comunicar-se com os mortos. Ao contrário, esta prática vai contra a fé em Deus, ao qual devemos confiar a nossa vida e a dos nossos entes queridos, sem pretender desvendar os segredos do futuro. O marido ou a mulher, se amam de verdade, ficariam ofendidos, se o outro cônjuge, em vez de confiar na sua palavra, fosse investigar por meio de outros a verdade de suas promessas. Assim também recorrer aos espíritos para saber o que vai acontecer ou o que devemos fazer é uma prova de desconfiança na bondade de Deus que nos mostrou o caminho da vida verdadeira por meio de Jesus Cristo.
João A. Mac Dowell S.J.
2. Quando a Bíblia conta que o espírito do profeta Samuel foi evocado por uma médium a pedido do rei Saul, não está confirmando que podemos nos comunicar com os espíritos dos mortos?
Já me referi outro dia a esta história. É verdade que a Bíblia conta no Primeiro livro de Samuel, capítulo 28, que o rei Saul estava angustiado porque se sentia abandonado por Deus e não sabia o que fazer diante da invasão do país pelo exército dos filisteus. Embora tivesse proibido por lei a evocação dos mortos, o rei resolve pedir a uma médium que evocasse o profeta Samuel, que tinha sido seu amigo e conselheiro. Depois de muita insistência, a mulher aceita e transmite-lhe a mensagem que recebe: os israelitas serão vencidos e Saul e seus filhos morrerão na batalha.
Que prova esta história? A Bíblia registra apenas o que era contado pelo povo: Saul consultou a médium, apesar da proibição de Deus, e esta lhe disse que via um velho envolto num manto, como Samuel, referindo-lhe as suas palavras. Mas a Bíblia não diz que o espírito do profeta se materializou realmente e falou com Saul. Não afirma que houve uma verdadeira comunicação com os mortos. Relata o que aconteceu, sem dar uma explicação. O transe da médium pode ter sido uma pura encenação ou um fenômeno paranormal.
O rei já chegou à casa da mulher como um homem derrotado e sem forças. Apesar do disfarce, ela o reconheceu e só se decidiu a evocar o morto depois que Saul garantiu que não seria punida. Era fácil prever que um general tão perturbado não podia vencer a batalha. De fato, as palavras que a médium põe na boca de Samuel são mais ou menos as mesmas que o profeta tinha pronunciado em vida, anunciando a rejeição de Saul por Deus.
Mais tarde Jesus vai confirmar, na parábola do rico avarento e do pobre Lázaro, que a comunicação direta com os defuntos é impossível. Depois da morte, o primeiro é condenado ao inferno e o outro se salva. Então o rico pede que Lázaro vá avisar a seus irmãos que mudem de vida, para que não venham parar no mesmo lugar de tormentos. Mas a resposta é negativa: Se não dão ouvidos a Moisés e aos Profetas - quer dizer, à palavra de Deus na Bíblia - mesmo que um morto lhes aparecesse não ficariam convencidos.
Não são os espíritos dos mortos, através de médiuns, mas é o Espírito de Deus, por meio de seus profetas e do seu próprio Filho, Jesus Cristo, que nos revela o sentido de nossa existência e o que devemos fazer para participar de sua felicidade.
João A. Mac Dowell S.J.
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