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O caráter original da Quaresma, conforme a força expressiva da própria palavra, foi colocado na penitência de toda a comunidade e dos indivíduos, prolongada por quarenta dias.
Na determinação da duração de quarenta dias, é mais do que certo que teve grande peso a tipologia bíblica dos quarenta dias, isto é:
- Os quarenta dias de jejum de Jesus no deserto (Lc 4,2)
- Os quarenta anos transcorridos pelo povo de Deus no deserto (Ex 16,35);
- Os quarenta dias em que Moisés esteve no Monte Sinai ( Ex 24,12-18; Dt 9,9);
- Os quarenta dias em que Golias, o gigante filisteu, desafiou Israel, até que Davi avançou contra ele, abateu-o e o matou (1Sm 17,16ss);
- Os quarenta dias durante os quais Elias, fortificado pelo pão cozido sob as cinzas e pela água, chegou ao monte de Deus, o Horeb (1Rs 19,3-8);
- Os quarenta dias nos quais Jonas pregou a penitência aos habitantes de Nínive ( Jn 3,4).
Com o Deuteronômio surge uma interpretação dos quarenta dias como dias da prova a que Deus submete o povo ( Dt 2,7; 8,2-4). São os dias de prova visando o crescimento na fé, conforme o salmo 94.
Para o livro dos Atos dos Apóstolos, o número 40 é simbólico. Assim se vê a vida de Moisés dividida em três períodos de quarenta anos ( At 7,23.30); os quarenta anos do reinado de Saul ( At 13,21); os quarenta dias da ascensão (At 1,39).
A narração dos quarenta dias de Moisés sem comer nem beber no Sinai, para receber a lei (Ex 24,12-18.34), e os quarenta dias de Elias (1Rs 19,3-8), mais a narração dos dias de Jesus no deserto (Lc 4,2), são as narrações de base para desvendar o sentido bíblico dos quarenta dias. Os quarenta dias bíblicos são de modo especial dias da graça ou das maravilhas que Deus opera em prol de seu povo ( Ex 14,31 e o cap. 15; Am 2,10; Esd 9,21; Jt 5,15)
No tempo dos Padres e Mães da Igreja, os quarenta dias da Quaresma eram contados do primeiro Domingo da Quaresma até a Quinta-feira "na Ceia do Senhor", como se lê num sermão de São Leão Magno. O Missal romano conserva até agora a lembrança e o uso deste modo de contar os dias da Quaresma. Em 1962 o papa João XXIII definiu o término da Quaresma com a noa ( 15 horas) da Quinta-feira santa, oração que se recita na Liturgia das Horas.
Contudo, o costume de iniciar o jejum quaresmal na Quarta-feira que antecede o primeiro Domingo de Quaresma é muito antigo (séculos VI-VII) e o rito da imposição das cinzas, estabelecido nesse dia, até fez com que a Quarta-feira de Cinzas, na prática comum dos fiéis, se difundisse mais do que outros dias solenes.
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